"Amor de Infância, Destino de Adulto-Gabriel Martinelli" Capítulo 35
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Point of View — Ana Gabriela
Eu, o Neymar e a Amanda chegamos ao estádio juntos.
Ele conversou rapidamente com o Tite para ficar na torcida naquele jogo — e, a partir daí, simplesmente decidiu que ficaria grudado em nós duas o tempo inteiro.
Dessa vez, ficamos na parte mais baixa do estádio, junto da comissão técnica da seleção.
Amanda reclamou.
Reclamou muito.
Mas foi só bater o olho no Gabriel Jesus aquecendo em campo, bem ali, praticamente na nossa frente… que ela se calou na mesma hora.
Conveniente.
Eu tentei prestar atenção no jogo, no movimento do campo… mas meus olhos sempre voltavam para ele.
Gabriel Martinelli.
Mesmo de longe, dava pra ver.
O nervosismo.
O jeito mais rígido, os movimentos um pouco mais travados, a concentração que parecia pesada demais para um jogo só.
E, pela primeira vez… eu quis estar lá.
Quis poder ajudar.
— Ana!
A voz veio apressada.
Virei o rosto a tempo de ver o Antony correndo na minha direção.
— Pega minha cria lá em cima — ele pediu, sem nem parar direito. — Faz esse favor… a mãe dele não vai conseguir ver o jogo hoje.
Revirei os olhos.
— Puta que pariu… virei babá agora?
Ele riu, já voltando em direção ao campo.
— Quem vê acha que não gosta.
Idiota.
Subi até a arquibancada, encontrei o Lorenzo e o peguei no colo. Quando voltei, me aproximei do Ney e da Amanda.
— O PEDRO! — Amanda gritou de repente. — MEU DEUS, O PEDRO!
Ela realmente tentou invadir o campo.
O Neymar segurou ela pela cintura antes que fizesse alguma besteira.
Eu não aguentei e ri.
— Garota, você vai ser expulsa. Depois eu te levo até o Pedro — ele falou, respirando fundo, já cansado. — Ana Gabriela, você vai pagar minha terapia. Eu já tive que ouvir o quanto o Jesus é gostoso. Eu tô traumatizado.
Ri, apertando o Lorenzo nos braços.
E então… tive uma ideia.
— Ei… vamos fazer torcida pro tio Tinelli? — falei, olhando pra ele.
— Tio! — ele apontou para o campo.
Sorri.
— Isso. O que a gente vai gritar?
— Tinelli! — ele repetiu, animado, já se balançando nos meus braços.
Balancei a cabeça, rindo.
— Martinelli, amor… fala Martinelli.
— Matinelli!
Eu ri.
Tá… estava melhor do que Tinelli.
E então ele começou a gritar, batendo as mãos no ar, completamente empolgado.
Quem percebeu primeiro foi o Antony.
Ele virou o rosto, encontrou a gente… e começou a rir.
— GABRIEL! — ele gritou em direção ao campo.
O Martinelli virou.
E, quando viu o Lorenzo… o sorriso veio na hora.
Aberto.
Leve.
Diferente.
Ele fez um coração com as mãos, apontando pra gente antes de voltar ao aquecimento.
— Coração pra você! — o pequeno disse, olhando pra mim.
Eu segurei a risada.
Sério… eu ia jogar aquela criança no campo.
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— Tio Ney… — entreguei ele para o Neymar. — Fica com ele.
— Sinceramente… — ele colocou o Lorenzo nos ombros, como se fosse a coisa mais natural do mundo. — Vamos torcer, moleque!
E lá estava ele.
Pulando, gritando, vibrando com uma criança nos ombros como se fosse só mais um torcedor.
Eu ri.
De verdade.
Depois de alguns minutos… o jogo começou.
Brasil e Camarões.
Não era, teoricamente, um jogo difícil.
Mas era Copa do Mundo.
E em Copa… qualquer detalhe vira perigo.
O primeiro tempo foi bom.
O Brasil pressionou, criou, dominou boa parte do jogo… e eu me peguei surpresa com a forma como eles estavam jogando.
Especialmente os mais novos.
Mas o segundo tempo…
O segundo tempo foi diferente.
O tempo começou a passar rápido demais.
O zero no placar começou a incomodar.
E aquela sensação… de que algo estava errado… foi crescendo.
— Puta merda… tá acabando — o Neymar falava do meu lado, apertando o Lorenzo sem nem perceber.
Noventa minutos.
Acréscimos.
A tensão virou desespero.
O Neymar gritava como um técnico à beira do campo.
Amanda praticamente surtava, exigindo um milagre do Antony e do Gabriel Jesus.
E então…
Aconteceu.
Dois minutos de acréscimo.
Um lance.
Um erro.
Gol.
O silêncio veio primeiro.
Pesado.
Depois o apito final.
Brasil 0. Camarões 1.
Respirei fundo.
Já estávamos classificados.
Mas aquilo… ainda doía.
Saí do meu lugar e desci para o campo. Neymar e Amanda vieram comigo.
A primeira coisa que fiz foi ir até o Antony.
Entreguei o Lorenzo pra ele.
— Obrigado — ele disse, com um sorriso fraco. — E… desculpa por não conseguir a vitória.
O Neymar bateu no ombro dele.
— Tá tranquilo. Vocês jogaram demais. Copa é isso.
— Ana… — ele me chamou de novo.
Olhei pra ele.
— Acho que você devia ir ver o Martinelli.
Assenti.
Procurei a Amanda… e encontrei ela no banco de reservas, beijando o Gabriel Jesus sem nenhuma vergonha.
Desviei o olhar.
Prioridades.
Passei os olhos pelo campo.
Nada do Martinelli.
Foi quando entrei no vestiário.
E encontrei ele.
Deitado no chão.
A camisa cobrindo o rosto.
— Sai daqui.
A voz saiu abafada.
Baixa.
Mas carregada.
— Quer conversar?
— Eu quero que você saia daqui, Ana.
Dessa vez, não foi só cansaço.
Foi irritação.
Me aproximei um pouco mais.
— Não vou te deixar sozinho. E se você não falar comigo, eu vou chamar o Pedro… ele vai recitar quinze salmos pra você.
Silêncio.
Ele tirou a camisa do rosto.
Os olhos vermelhos.
O rosto tenso.
— Sai daqui… por favor.
— O Brasil tá classificado. Não precisa ficar assim… foi o primeiro jogo de vocês, é normal—
Ele se levantou de uma vez.
— É. — riu, sem humor nenhum. — A gente só provou que não serve pra porra nenhuma.
O tom dele me fez travar por um segundo.
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— Provamos que nunca deveríamos ter saído do banco.
— Cala a boca.
Eu nem pensei.
Só falei.
Ele passou por mim, arrancando a chuteira, indo até o próprio armário.
— Sai daqui, Ana. Eu já falei.
— Você foi incrível hoje.
Foi sincero.
De verdade.
Mas não adiantou.
— SAI DAQUI, PORRA! EU NÃO QUERO TE OUVIR!
O grito ecoou.
Eu fechei os olhos.
E foi quando senti uma mão no meu ombro.
— Primeira Copa do menino… primeiro jogo — a voz calma do Neymar veio atrás de mim. — Deixa ele comigo.
Assenti.
Sem discutir.
Saí do vestiário e fui direto até o banco, sentando ao lado do Antony.
Encostei a cabeça no ombro dele.
E foi só ali que percebi que meus olhos estavam cheios de água.
— Não funcionou, né? — ele perguntou.
Neguei.
— Não fica assim… todo mundo tá abalado. O Gabriel só tá lidando com isso da pior forma.
Respirei fundo.
— E se a gente não ganhar o próximo jogo?
Ele soltou uma risada fraca.
— A gente vai ter que pagar um psicólogo muito bom pra ele.
Acabei rindo também.
Mesmo sem vontade.
Ficamos ali em silêncio por um tempo… até que o Neymar saiu do vestiário.
E logo atrás dele…
O Martinelli.
Já de banho tomado.
Com a roupa de treino.
Mais calmo.
Ou pelo menos… tentando parecer.
Ele veio até mim.
Sem dizer nada.
Sentou no chão, bem à minha frente.
Instintivamente, afastei um pouco as pernas.
E ele apoiou a cabeça ali, inclinando pra trás, fechando os olhos.
Como se estivesse exausto demais pra fingir qualquer coisa.
Fiz carinho leve no cabelo dele.
Sem pensar.
Sem falar nada.
E então…
— Desculpa.
Foi a única coisa que ele disse.
E, pela primeira vez naquele dia…
O silêncio não doeu.
---
continua...
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