"Amor de Infância, Destino de Adulto-Gabriel Martinelli" Capítulo 34
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Point of View — Gabriel Martinelli
Levando em consideração toda a situação…
Eu fiz exatamente o que qualquer adulto de 21 anos faria.
Fugi.
Fui direto para o hotel onde minha mãe estava e me enfiei no quarto dela como se o mundo não existisse.
Naquele momento, eu estava deitado na cama, completamente coberto, como se aquele cobertor tivesse o poder de me proteger de tudo.
Da Copa.Da Isa.Da Ana.De mim mesmo.
— Gabriel, fala comigo.
— Gabriel não tá em casa — respondi, com a maturidade de uma criança de cinco anos.
Ela riu.
Claro que riu.
E, sem cerimônia, puxou o cobertor do meu rosto.
Eu olhei pra ela… e senti o choro vir.
— Vocês terminaram, não foi?
Eu assenti, mordendo o lábio.
Ela se aproximou e fez carinho no meu rosto, daquele jeito que só mãe sabe fazer.
— Mãe… descobre o que eu tô sentindo.
Ela soltou uma risada baixa, sem acreditar.
— Como assim? Filho, você não é mais criança.
As lágrimas vieram antes que eu pudesse impedir.
— Eu não tô dando conta — falei, a voz falhando. — É muita coisa. Copa, a Isabella… a Ana… o Antony… eu vou enlouquecer.
Eu passei a mão no rosto, frustrado.
— Você deveria resolver isso depois da Copa.
— Eu sei… — me sentei, encarando o chão. — Mas e se for tarde?
Ela inclinou a cabeça.
— Tarde pra quê?
Eu abri a boca… e fechei de novo.
Era isso.
Eu sabia o que estava sentindo.
Mas e se eu estivesse errado?
E se eu falasse… envolvesse todo mundo… e depois descobrisse que não era nada daquilo?
— Eu não sei.
Ela respirou fundo, claramente perdendo a paciência.
— Gabriel, eu te criei pra ter medo do amor?
Levantei o olhar.
— Eu conversei com a Isa sobre você e a Ana — ela continuou. — E nós duas pensamos a mesma coisa.
Meu coração acelerou.
— Mas agora… você precisa falar o que sente. Senão ninguém pode te ajudar.
Eu neguei com a cabeça.
Não.
Falar em voz alta tornava tudo real demais.
Olhei o relógio.
Já era tarde.
— Posso dormir aqui?
Ela assentiu.
E, depois de um tempo em silêncio, deitou ao meu lado, fazendo carinho no meu cabelo.
Como quando eu era criança.
Aquilo me desmontou de vez.
— Como eu sei que gosto dela? — perguntei, finalmente. — Eu tô com medo de não saber… e acabar estragando tudo.
Minha voz saiu baixa.
— É muita coisa aqui dentro.
Ela não respondeu na hora.
Só continuou fazendo carinho, como se estivesse organizando as próprias palavras.
— Você vai saber que é ela… quando parecer que só existe ela no mundo.
Fechei os olhos.
Porque eu já sentia isso.
Quando ela ria…Quando dançava…Quando gritava no estádio como se não existisse mais ninguém.
Tudo sumia.
Ficava só ela.
— Eu já penso assim… — murmurei. — Faz um tempo, na verdade.
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— E você ainda tem dúvida?
Não respondi.
Passei a vida inteira lidando com pressão.
Mas aquilo…
Aquilo era diferente.
Era como se eu fosse explodir por dentro.
Fechei os olhos.
E, sem perceber…
Apaguei.
---
Acordei cedo no dia seguinte.
Mais cedo do que o normal.
Talvez porque, pela primeira vez… eu não estava fugindo.
Voltei para o hotel da seleção e, assim que cheguei, dei de cara com todo mundo reunido no café.
E com o Tite.
Ele me olhou por cima do copo de café.
— Martinelli no ataque.
Demorei um segundo pra processar.
— O quê?
Ele arqueou a sobrancelha.
— Nunca jogou Copa do Mundo, não?
Neguei, ainda meio travado.
Ele riu.
— Parabéns. E espero que esteja pronto.
Deu um tapinha no meu ombro ao passar.
— Se não tiver… joga do mesmo jeito.
Fiquei parado.
Sem reação.
Eu ia jogar.
Na Copa.
Antes que eu pudesse pensar, senti alguém me puxar.
Quando vi, já estava sendo esmagado num abraço coletivo.
Antony, Ana… e Gabriel Jesus.
— Você vai jogar, moleque! — Antony riu. — Eu também vou, mas você vai jogar!
Eu ri, ainda meio perdido.
Ana me olhou.
Depois olhou pro Antony.
E, do nada, empurrou o Jesus de leve e abraçou nós dois.
— Eu amo vocês!
Ela pulava, animada.
Leve.
Como sempre.
— Eu não te amo não — Antony resmungou. — Ama ela por mim, Martinelli.
Olhei pra Ana.
E, sem pensar…
— Eu amo ela por mim… por você… até por ela mesma.
Eles riram.
Mas eu senti o peso das minhas próprias palavras.
— Eu amo demonstração de amor!
A voz veio atrás.
Amanda.
Claro.
Ela puxou Ana pelo braço.
— Mas agora eu preciso transformar minha amiga em torcedora de verdade.
— O quê? — Ana riu.
— Hoje você torce comigo, querida. Nada de neutralidade.
Ela me olhou.
Direto.
— Ô apaixonado incompreendido… me dá uma blusa sua.
Revirei os olhos.
— Só tenho a oficial.
— Me ajuda a te ajudar, garoto — ela cruzou os braços. — Eu vou fazer a Ana torcer pra você e você tá me negando uma camisa?
Suspirei.
— Já volto.
Fui até o quarto, peguei a camisa azul da seleção, com meu nome nas costas.
Quando voltei, entreguei pra Amanda.
Ela sorriu, satisfeita.
— Tá vendo? É só pressionar que resolve.
Se virou, já puxando Ana.
— Devolvo depois do jogo!
E saiu arrastando ela.
Fiquei olhando, sem saber se ria ou se ficava nervoso.
— Vou perguntar uma vez só.
A voz do Antony me trouxe de volta.
Olhei pra ele.
O sorriso tinha sumido.
— E se você não for sincero, eu juro que começo a ignorar você.
Suspirei.
— Você gosta dela?
Direto.
Sem rodeio.
— Eu não posso ficar com ela sabendo que meu melhor amigo tá…
— Sim.
A resposta saiu antes que eu pensasse.
Silêncio.
Antony me encarou.
Surpreso.
Mas então… sorriu.
— Demorou, hein?
Soltei o ar devagar.
— Até eu já sabia.
Balancei a cabeça, sem acreditar.
— Relaxa — ele continuou. — Não vou ser eu que vou tirar ela de você.
— Se vocês quiserem ficar…
Ele me deu um tapa na nuca.
Forte.
— Para de mentir pra mim, seu idiota.
Alguns jogadores olharam.
Ignorei.
— Tem problema, sim — ele continuou. — E você sabe disso.
Passei a mão na nuca, rindo de nervoso.
— Você não bate bem.
— Pra que eu vou competir com você?
Ele deu de ombros.
— Nem se eu quisesse eu ganhava.
Aquilo me pegou desprevenido.
— Antes de qualquer coisa… você é amigo dela — ele disse. — E isso já te coloca na frente.
Fiquei em silêncio.
— Agora vamos pensar — ele abriu um sorriso. — Eu faço o gol… e você ganha a garota.
Neguei, rindo.
— Você é maluco.
— Sou mesmo.
Ele levantou a lata de bebida.
— E vou ser o melhor cupido que essa história já viu.
Balancei a cabeça.
Às vezes eu esquecia…
Que meu melhor amigo era completamente sem noção.
Mas, pela primeira vez em dias…
Eu sorri de verdade.
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