"Irmã de Mentira, Amante Verdadeira" Capítulo 2
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O dia em que a "filha verdadeira" voltou foi o de um grande jantar beneficente.
Rafael Venturi nunca entrava numa batalha sem estar preparado.
Se ele ousou deixar aquela moça aparecer num evento daquele porte, é porque já tinha tudo calculado.
Eu estava com o vestido longo de veludo preto que ele mesmo havia escolhido, pendurada no braço dele, representando o papel que me cabia: a herdeira Venturi — comportada, distante, intocável.
Até as portas se abrirem e os holofotes caírem sobre aquela figura.
Ela se chamava Sofia.
Vestia um vestidinho branco desbotado de tanto lavar, e ficou ali parada, tímida, como uma florzinha branca sacudida pela tempestade.
Mas quando ela levantou o rosto, ouvi as pessoas ao redor prendendo a respiração.
A semelhança era impressionante.
Não era parecida comigo. Era parecida com o Rafael de quando era mais jovem.
Aquele olhar frio e teimoso gravado nas sobrancelhas e nos olhos — era como se tivessem sido feitos no mesmo molde.
E o mais importante: quando ela inclinou levemente a cabeça por conta do nervosismo, a nuca revelou uma marca de nascença em forma de meia-lua, vermelha, que faiscou sob as luzes da festa.
Era a marca exclusiva da filha perdida da família Venturi.
A marca que uma impostora como eu jamais teria.
O braço de Rafael enrijeceu por um instante.
Só um instante. Mas foi suficiente para ele me soltar e caminhar em direção à moça com passos largos.
"Qual é o seu nome?"
O salão inteiro emudeceu. A voz de Rafael ecoou pelo espaço.
A moça tinha os olhos marejados, a voz trêmula. "So... Sofia."
Naquele momento, eu me tornei o maior motivo de chacota da noite.
Os cochichos das convidadas chegaram como uma maré.
"Olha a Lara, ficou branca que nem papel."
"Falsidade sempre aparece. A verdadeira chegou e a máscara caiu."
"Quanto será que o Rafael desperdiçou nessa impostora todos esses anos?"
Fiquei parada, observando Rafael tirar o próprio paletó e colocar nos ombros de Sofia.
Observando ele protegê-la com cuidado, como se ela fosse um tesouro raro que havia reencontrado depois de muito tempo.
Era uma ternura que ele nunca me ofereceu.
Para mim, ele exercia posse, usava, criava como se eu fosse um animal doméstico.
Para Sofia, era o sangue reconhecendo o sangue.
Me virei, peguei uma taça de champanhe e a esvazie de uma vez.
O líquido ardeu na garganta e engoliu a ardência que teimava em subir aos olhos.
Não era ciúme o que eu sentia por Sofia.
Era medo.
Eu sabia muito bem como Rafael tratava traidores e pessoas que perdiam a utilidade.
Aqueles HDs destruídos por mim. Aquelas pessoas que simplesmente deixaram de existir. Eram todos exemplos vivos disso.
Naquela noite, Sofia foi instalada na mansão dos Venturi.
No quarto principal, bem ao lado do de Rafael.
Uma área em que nem eu tinha permissão de entrar.
Fui mandada para um dos quartos de hóspedes.
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As empregadas eram experts em mudar de lado conforme o vento. A sopinha de ninho de andorinha que antes vinha para o meu quarto foi redirecionada sem cerimônia.
"Desculpa, senhorita Lara, a mocinha acabou de chegar e está fraca, a sopinha era a última porção que tinha."
Dona Marta me encarou com aquele sorriso de fachada. Respondi com calma:
"Tudo bem, eu não gosto de doce."
Fechei a porta.
De baixo da cama, puxei uma mochila preta que eu havia preparado faz um tempo.
Dinheiro vivo, passaporte falso, alguns anestésicos de alta concentração disfarçados de batons e uma minigranada de fumaça que eu mesma havia desenvolvido.
Era minha saída de emergência.
Achei que nunca fosse precisar. Agora estava claro que era hora de usá-la.
Tarde da noite, mal abri a porta do quarto e dei de cara com alguém.
Sofia.
Vestia uma camisola de seda, segurava uma caneca de leite quente com as duas mãos, parada sob a luz fraca do corredor. Não restava nada daquela timidez do jantar.
Ela me olhou, e um sorriso estranho se formou no canto dos lábios.
"Já vai embora, irmãzinha?"
A voz era suave. Mas carregava um frio difícil de nomear.
Franzi o cenho. "Sai da frente."
Sofia deu um passo em minha direção, os olhos pousando na mochila, cheios de uma ganância escura.
"Como é que um homem como Rafael Venturi aguentou criar uma idiota como você por dez anos? Você acha mesmo que vai conseguir fugir?"
Ela estendeu a mão e passou os dedos finos pela minha bochecha, as unhas compridas e afiadas.
"Se eu fosse você, ajoelhava e pedia clemência. Talvez, levando em conta que você carregou o sobrenome da família por dez anos, eu deixasse sair inteira daqui."
Agarrei seu pulso num movimento brusco e torci.
"Ai!"
Sofia soltou um grito, o leite se esparramou pelo chão.
"O que você está fazendo?!"
Um berro veio lá do fim do corredor.
Rafael subiu os degraus a passos largos, me empurrou para o lado e colocou Sofia atrás de si.
"Irmão... ela disse que eu sou filha de ninguém, disse que eu não mereço..."
Sofia cobriu o pulso com a mão, e as lágrimas vieram na hora, perfeitas, com aquele trêmulo de quem está arrasado.
Observei a cena com frieza.
Era um truque velho, batido.
Mas naquela casa, os truques velhos costumavam funcionar melhor do que qualquer outro, porque o árbitro já havia escolhido o lado.
Rafael virou a cabeça na minha direção, me encarando como se eu fosse uma sentença já decidida.
"Lara. Pede desculpa."
Endireitei as costas. "Não fiz nada de errado."
"Estou mandando você pedir desculpa!"
A voz de Rafael subiu de tom, carregada de uma autoridade que não deixava espaço para réplica.
Olhei para esse homem que eu chamei de irmão por dez anos.
A última fagulha de esperança dentro de mim se apagou de vez.
"Desculpa."
Abaixei a cabeça, a voz saiu tão calma que até eu me surpreendi.
"Não devia ter sujado a roupa da senhorita."
Dito isso, me virei, voltei para o quarto e fechei a porta com força.
Do lado de fora, chegava abafado o som de Rafael consolando Sofia em voz baixa.
Encostei as costas na porta e fui deslizando devagar até sentar no chão.
Não era tristeza.
Era lucidez.
Lara, já era hora de acordar. Esse lugar nunca foi a sua casa.
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