"Após renascer, usei a razão para proteger a minha filha." Capítulo 30
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Naquela noite, Erika voltou a sonhar.
Não era mais o pesadelo puro de sangue e fogo da vida passada.
Desta vez, o sonho era mais distorcido, carregado de símbolos.
Ela estava no centro de um tribunal.
Mas não havia júri, nem juiz.
Apenas inúmeros rostos borrados, tremeluzentes, olhando para ela com olhos vazios, abrindo e fechando a boca em silêncio, como peixes famintos esperando serem alimentados.
Diante dela estava Raul.
Os óculos de aro dourado refletiam uma luz branca e ofuscante.
Ele não dizia nada.
Apenas apontava para ela, com aquele sorriso frio e satisfeito nos lábios.
Ela tentou se defender.
Abriu a boca — mas nenhum som saiu.
Sua garganta estava selada, como se preenchida com gesso frio.
Então ela olhou para as próprias mãos.
Não havia documentos.
Nem provas.
Havia uma faca.
A mesma faca da vida passada.
A lâmina estava coberta por um líquido escuro e viscoso —
vermelho profundo —
pingando lentamente sobre o chão liso como um espelho.
Ploc… ploc…
O som ecoava, gelando a alma.
Então… ela ouviu o choro de Lily.
Não era o choro desesperado no tribunal.
Era mais antigo… mais fraco…como o lamento abafado de um animal ferido.
O som vinha de trás.
Ela se virou abruptamente.
E viu Lily.
Pequena, de vestido amarelo-claro, cabeça baixa, ombros tremendo.
Mas… diante dela…estava outra Erika.
Coberta de sangue.
Olhos enlouquecidos.
Segurando uma faca ainda pingando.
Aquela Erika estendeu a mão, como se quisesse tocar a cabeça de Lily.
Mas seus dedos estavam cobertos de sangue.
Lily recuou, apavorada — e colidiu contra a Erika “real”.
Erika tentou abraçar a filha.
Mas então percebeu—
Seus próprios braços também estavam cobertos de sangue.
Por mais que tentasse limpar… não saía.
A outra Erika levantou a cabeça.
Seus olhos — idênticos — mas cheios de desespero e violência.
Seus lábios se moveram em silêncio:
“Está vendo? Essa é você.
Nunca vai conseguir se limpar.”
Ao redor, os rostos borrados começaram a murmurar.
O som cresceu… transformando-se numa maré de escárnio e malícia.
O sorriso de Raul se alargou… quase rasgando o rosto.
O sangue no chão começou a se espalhar, como raízes vivas, enroscando-se nos tornozelos de Erika… rastejando em direção a Lily…
—
Erika acordou gritando.
Seu corpo inteiro estava encharcado de suor frio.
O coração batia tão forte que parecia querer sair pela garganta.
O quarto estava escuro.
Apenas uma luz fraca da rua entrava pela janela.
Ela arfava, o ar gelado queimando os pulmões.
Instintivamente, estendeu o braço—
Vazio.
Lily não estava na cama.
O pânico a dominou instantaneamente.
Ela se levantou de um salto, descalça,
e correu para o quarto da filha.
À luz tênue do corredor,
viu Lily encolhida no canto da cama,
de costas,
os ombros tremendo levemente.
Um choro contido… quase inaudível.
“Lily…?”
A voz de Erika saiu rouca.
O corpo da menina enrijeceu.
O choro parou.
Mas ela não se virou.
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Erika se aproximou devagar, sentou-se na cama
e estendeu a mão…
Mas parou antes de tocá-la.
A imagem do sonho —
as mãos cobertas de sangue —
era vívida demais.
Ela recuou.
“Teve um pesadelo, querida?”
Sua voz tremia, sem que percebesse.
Silêncio.
Longo demais.
Então, finalmente—
“…sim.”
“Com o quê você sonhou?”
Silêncio novamente.
Depois—
“Mamãe…”
A voz de Lily era baixa, estranhamente calma.
“aquele homem… o tio Everton…
ele nunca mais vai sair, né?”
Erika forçou firmeza:
“A lei vai puni-lo. Ele vai ficar preso por muito, muito tempo.”
“Mas…”
Lily se virou.
Na penumbra, seus olhos estavam grandes, cheios de medo e confusão.
“Aquele advogado disse que você estava mentindo…
que você estava se vingando…”
“Parecia que muita gente acreditou…”
“E se… o juiz e aquelas pessoas também acreditarem…
e soltarem ele…?”
A pergunta atingiu Erika como uma lâmina.
Esse era exatamente o “e se” que ela evitava.
Ela sempre disse:
“temos provas”,
“a justiça vai funcionar”.
Mas agora…
Nem ela acreditava totalmente nisso.
A justiça não era uma máquina.
Era feita de pessoas.
E pessoas podem ser manipuladas.
“Não vai acontecer, querida…”
Ela tentou, mas sua voz soou vazia.
“Temos provas. Muitas provas.”
Lily baixou ainda mais a voz:
“Mas… as provas foram feitas por você…”
“Se… como o advogado disse… você fez de propósito…”
“essas provas ainda valem?”
Erika ficou sem resposta.
Como explicar, para uma criança,
as nuances do direito,
as regras de admissibilidade,
as exceções?
Na lógica simples de Lily—
Se a intenção estivesse “contaminada”…
a prova também estaria.
E era exatamente isso que Raul queria.
Plantar dúvida.
Em todos.
Inclusive nela.
Lily observou o silêncio da mãe.
O medo em seus olhos aumentou.
De repente, ela se sentou e agarrou o braço de Erika.
Seus dedos estavam gelados.
“Mamãe… eu tenho medo…”
“Tenho muito medo…”
“À noite, eu não consigo dormir…
eu escuto ele batendo na porta…
escuto ele falando…”
“Eu sinto que ele ainda está lá fora…”
“Que ele ainda tem a chave…”
“Que ele vai entrar pela janela…”
Sua voz começou a tremer.
“Eu não quero passar por aquilo de novo…”
“Não quero ficar presa no quarto… ouvindo aquilo…”
Ela olhou para Erika, com os olhos cheios de lágrimas—
um pedido desesperado, profundo, impossível para uma criança carregar:
“Mamãe… você pode…
fazer com que ele…
nunca mais… nunca mais apareça?”
—
Essas palavras caíram como um trovão.
Não era mais “punir”.
Nem “prender”.
Era algo mais primitivo.
Mais absoluto.
Um desejo de segurança total.
Irrevogável.
Física.
Permanente.
E… isso…
era exatamente o que Erika havia feito na vida passada.
Naquele instante—
A Erika ensanguentada, segurando uma faca,
em meio a fogo e morte…
e a Erika de agora, sentada ao lado da cama da filha…
se sobrepuseram.
Algo frio subiu lentamente por sua espinha.
Não era raiva.
Era algo mais profundo.
Mais escuro.
Uma tentação.
A tentação de “resolver de vez”.
Se a lei falhar…
Se o preconceito vencer…
Se aquele homem sair impune…
Se ele voltar…
Se ele continuar a assombrar Lily…
Então…
O pensamento parou ali.
Mas a escuridão… já havia começado a responder.
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