"Após renascer, usei a razão para proteger a minha filha." Capítulo 11

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A voz dele era viscosa, escorregadia, como uma cobra deslizando sobre a pele.

Erika mordeu com força o lábio inferior, até sentir o gosto de sangue, só assim conseguiu conter o impulso de sair correndo e rasgar aquela boca imunda.

O celular vibrava levemente na palma da mão, indicando que a gravação estava em andamento.

Ela apontou a câmera para ele, ajustou o ângulo, garantindo que seu rosto e seus próximos movimentos fossem capturados.

—

Everton entrou de lado, esgueirando-se para dentro, e fechou a porta com cuidado atrás de si.

Não acendeu a luz.

Parecia apreciar a penumbra, o sigilo, a sensação de controle.

Ficou no centro da sala, o olhar passando pelo sofá vazio, pela mesa de centro, até parar na porta fechada do quarto de Lili.

O canto da boca se abriu num sorriso maior, carregado de malícia.

—

“Lili... não precisa ficar com vergonha.”

“Eu sei que você tá sozinha. Sua mãe foi ao cinema. Vai demorar pra voltar.”

Enquanto falava, caminhava em direção à porta do quarto, os passos cada vez mais leves, como um gato pesado se aproximando de um rato.

“Eu trouxe o boneco daquele desenho novo pra você... e chocolate também.”

“Você quer ver? Abre a porta, vai.”

—

Ele parou diante da porta do quarto de Lili.

Estendeu a mão.

Girou a maçaneta.

—

Trancada.

—

O sorriso congelou por um instante.

Logo depois, mudou.

Escureceu.

Ficou impaciente.

Ele forçou mais uma vez.

A maçaneta não se moveu.

—

“Lili? Abre a porta. Seja uma boa menina.”

Havia uma ameaça sutil na voz.

“Senão o tio vai ficar bravo. E você sabe... não é legal quando eu fico bravo.”

—

Silêncio absoluto.

Lili não respondeu.

—

O coração de Erika subiu até a garganta.

Lili, boa menina. Não faz barulho. Não abre.

—

Everton esperou alguns segundos.

Nada.

Murmurou um xingamento baixo.

Deu um passo para trás.

Observou a porta.

Como se estivesse calculando a possibilidade de arrombá-la.

—

Então pareceu lembrar de algo.

Virou-se.

E caminhou até a janela da sala.

—

O coração de Erika despencou.

Do lado de fora da janela havia uma saliência estreita na parede, usada para manutenção.

Dava acesso à janela do quarto de Lili.

E a janela do quarto...

Ela lembrou.

Por causa do calor, antes de sair, Lili tinha deixado uma fresta aberta.

—

Esse detalhe.

Como uma agulha envenenada.

Perfurando-a repetidamente em todas as lembranças de arrependimento.

Como ela pôde ser tão descuidada?

—

Everton sorriu.

Um sorriso feio.

Satisfeito.

Ele conhecia aquele “atalho”.

Talvez já tivesse observado antes.

—

Sem tentar mais a porta, foi direto até a janela.

Estendeu a mão.

—

Não!

Não pode deixar ele entrar pela janela!

—

No instante em que a mão dele tocou o caixilho—

O celular de Erika, escondido no vão, vibrou de repente.

—

Não era ligação.

Era uma mensagem.

—

O som foi baixo.

Mas no silêncio absoluto…

Soou estridente.

—

Everton parou imediatamente.

Virou-se de repente.

—

O olhar dele—

Frio.

Afiado.

Como um holofote.

—

Disparou direto para o esconderijo.

—

O ar congelou.

—

Os olhos dele eram como duas lâminas envenenadas, cravadas no espaço estreito entre os produtos de limpeza.

O sorriso desapareceu.

A excitação.

A malícia.

Tudo sumiu.

No lugar, surpresa.

E desconfiança.

—

“Quem tá aí?”

A voz baixa.

Tensa.

Controlada.

—

O coração de Erika parou.

Por um segundo.

Depois disparou.

Mais rápido.

Mais forte.

Como se fosse explodir para fora do peito.

—

O suor frio escorreu pelas costas.

Encharcou a roupa.

—

O celular em sua mão parecia uma brasa prestes a explodir.

Aquela maldita mensagem.

Quem foi?

Maria?

Spam?

—

Acabou.

Ela foi descoberta.

—

O plano.

Cuidadosamente preparado.

Falhou logo no primeiro passo.

—

O pânico subiu como uma trepadeira venenosa, envolvendo seus membros, apertando sua garganta.

As imagens da outra vida voltaram—

Everton se virando.

O rosto distorcido.

O punho vindo.

A faca fria em sua mão.

—

Não!

Calma!

Erika!

Calma!

—

Ela gritou consigo mesma.

Desta vez, você não tem faca.

Só tem o celular.

E a prova.

—

Você não pode entrar em pânico.

Se entrar, tudo se repete.

—

O espaço era escuro.

A bagunça escondia seu corpo.

Ele não conseguia ver claramente.

Podia ser qualquer coisa.

Um rato.

Algo caindo.

—

Ainda havia chance.

—

Ela não se moveu.

Nem um milímetro.

Prendeu a respiração.

—

Os dedos apertavam o celular com tanta força que os nós ficaram brancos.

Tremendo.

—

No canto da tela…

O ponto vermelho da gravação piscava em silêncio.

Como um coração frio.

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