"O Recomeço de Clarissa" Capítulo 1
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Havia um segredo aberto na elite paulista.
Se visse um homem dirigindo um Maybach com a placa de final 8888, era melhor não arrumar problema.
Jonathan era justamente o homem que dirigia o Maybach 8888.
Diziam os boatos que ele amava a esposa mais que a própria vida, mas adorava buscar novidades e adrenalina fora de casa.
Ele tinha uma vida boêmia cheia de excessos, mas mantinha apenas um limite sagrado:
A diversão nunca poderia chegar aos ouvidos de sua jovem esposa.
Todos sabiam que aquela mulher, que o acompanhava há sete anos, era seu único ponto fraco.
Se sua esposa desaparecesse por apenas uma hora, o homem seria capaz de enlouquecer.
Desta vez, porém, ele não conseguiria mais esconder.
A garota da vez era insolente demais e, valendo-se dos mimos do empresário, peitou Clarissa sem a menor noção do perigo.
Por isso, Clarissa também guardou um segredo dele.
Ela não queria mais continuar atuando naquele teatro, ela ia desaparecer de vez do mundo dele.
1
Duas horas da manhã, Jonathan abriu a porta e entrou.
Ele abraçou Clarissa por cima do edredom, cobrindo-a com beijos calmos e sussurrando um pedido de desculpas:
— Desculpa, Clarinha, o voo atrasou hoje e por isso cheguei tarde. Prometo que no aniversário de casamento do ano que vem vou passar o dia todinho com você, não fica brava, tá bem?
No entanto, Clarissa não conseguia processar uma palavra sequer naquele momento. Seus olhos estavam fixos na gola da camisa branca de Jonathan.
A camisa estava ligeiramente aberta e, no milésimo de segundo em que ele abaixou a cabeça, ela viu nitidamente marcas roxas de beijos e arranhões sob o colarinho.
Cada linha ali parecia narrar em silêncio a entrega e o delírio da noite que Jonathan acabara de vivenciar, e a dona daquelas unhas obviamente não era ela.
Jonathan nem sequer notou a reação dela.
Assim que ele foi para o banheiro se lavar, Clarissa pegou o celular dele e usou a senha para desbloquear.
O aparelho parecia perfeitamente normal e as mensagens corporativas estavam limpas, dando a impressão de que tudo não passava de uma paranoia da sua cabeça.
Exceto por um detalhe.
Clarissa abriu o aplicativo de comunicação interna da empresa e uma notificação saltou na tela.
"Chefe, ainda vai ter energia para dar conta do recado em casa?"
Os dedos de Clarissa tremeram de leve ao tocar na foto de perfil, que pertencia à secretária de Jonathan, Gabriela.
Havia também o histórico recente dos dois na plataforma.
"Você precisa mesmo voltar?"
"Preciso, hoje é o nosso aniversário de casamento. Seja boazinha, a gente se vê amãna no escritório."
Ela buscou o perfil pessoal de Gabriela nas redes sociais.
A publicação mais recente mostrava uma praia. A garota exibia olhos brilhantes, segurando firme a mão de quem tirava a foto, com um sorriso jovem e radiante voltado para a câmera.
O foco de Clarissa, contudo, foi atraído inevitavelmente para a mão que segurava a da menina.
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Bastou um olhar para reconhecer que se tratava da mão esquerda de Jonathan.
Aquela mão era íntima demais, os dedos longos, as articulações bem desenhadas, cada traço já havia sido tocado e decorado por ela ao longo dos anos.
E agora, embora o anel de casamento não estivesse naquele dedo anelar, a marca circular da aliança continuava visível ali.
Clarissa ficou estática assistindo àquela cena, com a mente em total letargo, enquanto seus dedos apertavam inconscientemente a aliança em sua própria mão.
Ela rolou a tela do celular devagar para baixo.
Com um toque suave, outro post da garota apareceu na tela.
Era a foto de um lote de cosméticos importados.
Batons de grife, bases, paletas de sombra e perfumes caros estavam organizados de forma impecável, e a legenda no topo da imagem perfurou o peito de Clarissa:
"Qual é a sensação de ter um homem que compra tudo o que você quer sem nem piscar?!"
Aquelas palavras que fingiam uma reclamação, mas transbordavam puro deboche, deixaram o rosto de Clarissa pálido num instante.
Ela sabia perfeitamente bem que o "homem" a quem a garota se referia era, com toda a certeza, Jonathan.
No passado, Jonathan também comprava tudo o que ela gostava, mas agora toda aquela exclusividade havia sido transferida para outra pessoa.
Olhando para aqueles produtos de luxo e pensando em como Jonathan mimava a garota, um aperto doloroso subiu por sua garganta.
Com as mãos trêmulas, Clarissa abriu o aplicativo de compras de Jonathan.
Ela puxou o ar com força, tentando estabilizar os batimentos cardíacos que estavam descompassados, mas a turbulência em seu peito era impossível de conter.
Quando a página carregou, a lista de pedidos recentes de Jonathan surgiu diante dela.
Estavam ali, enfileirados, cosméticos e produtos de tratamento de pele com valores exorbitantes, desde batons de edições limitadas até cremes rejuvenescedores e fragâncias importadas.
O coração de Clarissa parecia estar sendo esmagado por uma mão invisível, e a dor piorava a cada item que seus olhos cruzavam.
Mesmo assim, engolindo o sofrimento, ela abriu os detalhes de cada transação.
À medida que os comprovantes iam se abrindo, um endereço de entrega se repetia constantemente: era a cobertura nos Jardins que Jonathan mantinha antes de se casarem.
E no campo do destinatário, o nome estava escrito com total clareza: Gabriela.
2
Clarissa, mantendo a frieza, ativou a função de gravação de tela do celular e, com movimentos ágeis, começou a registrar todo o histórico de conversas dos dois.
O conteúdo dos diálogos não era extenso, limitando-se basicamente a Jonathan combinando os locais de encontro com a garota.
A jovem, por sua vez, sempre cobrava quando ele iria visitá-la, usando um tom carregado de expectativa e manha.
No meio de tudo isso, também sobravam mensagens com insinuações picantes.
Clarissa enviou rapidamente os arquivos de vídeo para o seu próprio número e, sem a menor hesitação, apagou o registro de envio do aparelho dele.
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Em seguida, abriu a galeria de fotos, localizou a gravação feita e a deletou imediatamente.
Não bastasse isso, ela foi até a lixeira do sistema e limpou os arquivos permanentemente. Todos os movimentos foram executados em sequência, sem qualquer vacilo, como se estivesse executando uma tarefa que exigisse precisão absoluta.
Terminado o processo, Clarissa permaneceu imóvel, segurando o aparelho, com o olhar perdido no vazio, como se sua mente estivesse distante dali.
O estalido da maçaneta do banheiro sendo girada a trouxe abruptamente de volta à realidade.
Ela respirou fundo, forçou os músculos do rosto para manter a expressão o mais natural possível e recolocou o celular exatamente onde estava antes.
Logo em seguida, Jonathan saiu do box.
Os cabelos úmidos caíam desalinhados sobre a testa, conferindo-lhe um ar despojado e atraente.
Gotas de água escorriam pelas pontas dos fios, seguindo um caminho lento até sumirem pelo contorno do seu maxilar marcante, dando um toque quase magnético à sua postura.
Jonathan usava uma toalha para secar a cabeça enquanto direcionava o olhar para Clarissa.
Nesse meio tempo, sua atenção foi atraída para o dedo anelar esquerdo dela, que estava completamente nu.
O semblante até então relaxado transformou-se em uma súbita surpresa.
— Onde está sua aliança? — ele questionou.
— Guardei. E a sua?
— Deixei no escritório, assim lembro de você toda vez que começo a trabalhar.
A voz de Jonathan ecoou pelo quarto, carregada daquele tom afetuoso de sempre, como se sua justificativa fosse a coisa mais genuína do mundo.
Contudo, Clarissa sabia perfeitamente bem que aquilo não passava de mais uma de suas fábulas.
Ela apenas continuou observando o marido, sem desmascarar o jogo dele, carregando no olhar um cansaço e uma desilusão profundos. Em outros tempos, ela talvez iniciasse uma discussão por causa de uma desculpa daquelas, exigindo a verdade.
Mas agora, ela simplesmente não tinha mais forças para gastar com resistências inúteis.
Deitou-se na cama, levando a mão de forma involuntária até a região do abdômen.
Ali, estrias esbranquiçadas desenhavam caminhos irregulares na pele, como cicatrizes profundas de uma batalha perdida.
Jonathan a puxou para perto, envolvendo-a em seus braços.
Ele estendeu a mão e a posicionou delicadamente sobre o ventre de Clarissa.
O calor da palma dele atravessou o tecido fino da roupa, mas Clarissa não sentiu conforto algum, aquela aproximação parecia mais uma algema de gelo que a prendia a uma vida sustentada por mentiras.
Um arrepio correu por seu corpo e o primeiro impulso foi se esquivar, mas ela se controlou a tempo, permanecendo imóvel sob o toque dele.
— Pensando no nosso anjinho de novo?
Anjinho era o apelido carinhoso que haviam escolhido para o bebê que partiu antes mesmo de conhecer o mundo.
— Não fica assim, não era para ser agora — ele sussurrou para confortá-la.
— Jonathan, vamos tentar ter outro filho.
— Clarinha, eu também quero muito, mas o seu corpo... é melhor esperarmos mais um pouco.
Clarissa percebeu a hesitação.
As reações físicas de um homem não têm como mentir.
3
— Minha mãe me mandou mensagem hoje cedo cobrando que eu ainda não engravidei, queria até me levar em um especialista — Clarissa comentou, apoiando a cabeça no ombro dele. — Que tal tentarmos esta noite?
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